segunda-feira, 27 de junho de 2011

MATEUS 11.12 – A Violência e o Reino de Deus?

MATEUS 11.12 – A Violência e o Reino de Deus

“E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele”.
Com o atual movimento de Batalha Espiritual muitos na igreja acabam considerando normal a violência como uma forma espiritual para combater o mal e o pecado. Palavras como armas, guerra, inimigo, batalha, estratégia, lutas, conquista e outras têm sido muito enfatizadas e por isto a violência tem sido muito incentivada como um conceito cristão. Mas qual é o tipo de violência que a batalha espiritual pode ser? Não podemos deixar de perceber e constatar que existe uma violência no conceito de batalha, de guerra espiritual, mas será que esta violência pode ser trazida para o relacionamento humano? A Bíblia diz que temos de revestirmos de uma armadura, mas as peças são espirituais, e Paulo diz que a vida dele foi um bom combate, entretanto a Bíblia diz que esta luta é espiritual, não física: (Efésios 6:12) - “Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais”. Quando a igreja transfere esta luta para o mundo físico, identificando pessoas pelo qual Jesus morreu para salvar, a igreja pode criar doutrinas perigosas, assim como aconteceu no período da idade média com as fogueiras e torturas para os que são contra a denominada igreja cristã.
Um dos textos mais usados para permitir atitudes violentas como de inspiração divina é Mateus 11:12. Façamos uma análise mais aprofundada do texto. Estas palavras do Senhor Jesus tem sido usadas para promover muitas violências contra pessoas, foram nelas que a Igreja Católica Medieval se apoiou para fazer a inquisição, e inclusive que muitos movimentos cristãos históricos se apoiaram para promover perseguição, genocídio, preconceito, racismo, e divisões. Os cristãos chegaram a formar exércitos para exterminar inimigos “pagãos”. Houve os “soldados de Cristo” que carregavam uma armadura e espadas reais e matavam fisicamente os chamados “inimigos da igreja”. A violência “cristã” criou a doutrina do anti-semitismo fazendo de todo judeu um traidor como Judas, e diminuiu todos os povos de pele escura como amaldiçoados por teoricamente serem filhos de Cão. Com doutrinas absurdas os pretensos “cristãos” criaram suas ‘desculpas’ para a violência a favor do Reino de Deus. O texto de Mateus 11:12 tem sido usado por muitos “cristãos” que o utilizam como apoio para promover a perseguição de todos que são considerados hereges, perdidos e traidores da igreja. Mas o que o texto diz dentro do contexto e nas palavras originais. Será que o Senhor Jesus estava pregando uma forma de aniquilação dos inimigos? Será que Jesus estaria de acordo com todas as atrocidades físicas e morais que foram promovidas dentro e pelas organizações dirigidas por igrejas? Será que Jesus apoiou em vida a eliminação dos romanos ou dos judeus que não aceitaram sua doutrina? Porque Jesus não deixou a “orelha de Malco” cortada, mas a curou e mandou Pedro deixar a espada?
A questão de ligar a violência contra o Reino dos Céus a uma pretensa violência contra todos que violentam o Reino de Deus seria uma contradição. Porque considerar que se pode violentar alguém que está violentando o Reino dos Céus seria afirmar que a violência do que violenta é maligna, então a violência não poderia ser usada em hipótese nenhuma, pois é do mal. Neste caso um herege ou inimigo do Reino dos Céus estaria apenas tentando conseguir conquistar o Reino dos Céus, e isto não deveria ser impedido, porque ele poderia ser salvo com sua violência. Vemos claramente que este pensamento é totalmente contrário a mensagem do Sermão da Montanha que afirma que os que alcançarão o Reino dos Céus são os “pobres de espírito” e “os que sofrem perseguição por causa da justiça”. (Mateus 5:3) - “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; (Mateus 5:10) - Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus”. Estes dois versículos utilizam o mesmo termo usado pelo texto estudado: Reino dos Céus. Além disso, no Sermão da Montanha, Jesus afirma outra bem-aventurança que diz ser os pacificadores ou os que trazem a paz, os que serão os filhos de Deus: (Mateus 5:9) - “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus”. Isto afasta muito o conceito de violência como forma benigna de alcançar o Reino dos Céus. No texto do Sermão da Montanha em Lucas o Reino dos Céus é traduzido por Reino de Deus, o que mostra que os dois são o mesmo lugar, não há diferença, pois o Reino dos Céus é o Reino de Deus.
Temos seis textos traduzidos abaixo do mesmo versículo:
O texto na tradução Almeida Corrida File (ACF) diz: “E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele”.
Na Atualizada (A) diz: “Desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele”.
Na Corrigida (C) diz: “E, desde os dias de João Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele”.
Na linguagem do dia de hoje (LDH) diz: “Desde os dias em que João anunciava a sua mensagem, até hoje, o Reino do Céu tem sido atacado com violência, e as pessoas violentas tentam conquistá-lo”
Na Nova Versão Internacional (NVI) diz: “Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos céus é tomado à força, e os que usam de força se apoderam dele”
Na Versão Católica (VC) diz: “Desde a época de João Batista até o presente, o Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam”.
Nas seis traduções encontramos uma primeira parte praticamente igual: “E, desde os dias de João o Batista até agora...”, apenas na LDH acrescenta uma amplificação que não é uma tradução, mas uma conclusão: “...anunciava a sua mensagem...”.
Já a segunda e terceira parte há uma diferença fundamental, que levará sua mensagem para dois caminhos opostos. Estas duas conclusões podem ser duas doutrinas diferentes:
- O Reino dos Céus é conquistado por meio de uma violência positiva e estas pessoas violentas conquistam o Reino dos Céus por meio desta violência, que seria um esforço extremo de conquistar a salvação.
- O Reino dos Céus sofre violência pelas pessoas violentas que tentam apoderar-se dele.
As duas posições são muito diferentes, mas as duas posições demonstram que o Reino dos Ceus recebe uma violência, entretanto numa corrente a violência é negativa e noutra é positiva. Nas duas correntes seria uma incoerência permitir a violência contra outras pessoas, pois o Reino de Deus aqui é chamado de Reino dos Céus, não da terra. Apoderar-se de territórios físicos usando de violência como se fosse para o Reino dos Céus, é um erro de interpretação e de coerencia com o texto. O texto diz de pessoas buscando positivamente ou negativamente o Reino dos Céus, e não conquistando mais espaço para o Reino dos Céus. O Reino dos Céus já está feito, quando a violência é usada para conquistá-lo. O Reino é dos Céus, não da Terra. O Reino dos Céus já de propriedade de Deus, e os “violentos” querem adquiri-lo. É muito estranho imaginar uma violência positiva, mas conforme a corrente que defende a violência como forma de alcançar o Reino dos Ceus, esta violência torna-se necessária. Neste pensamento: “O Reino dos Céus é conquistado por meio de uma violência positiva e estas pessoas violentas conquistam o Reino dos Céus por meio desta violência”.
No segundo pensamento o Reino dos Céus é violentado ou agredido por pessoas violentas, mas não conquistado por violência. Neste conceito a violência é uma arma usada contra o Reino dos Céus, e por meio de violência ou força apoderam-se dele. Em várias parábolas Jesus demonstra o que é o Reino dos Céus, e diz que o Reino dos Céus é semelhante a algum simbolo. Independente do local do Reino dos Céus, ele é um ambiente ou um grupo de pessoas que Deus está no controle. Então a violência contra o local ou grupo de pessoas que estão sobre o governo de Deus poderia gerar um tipo de conquista, mas que o texto não diz ser uma conquista de domínio, mas de aprisionamento, mesmo que seja apenas fisicamente. Pessoas violentas então poderiam através da violência agredir o Reino de Deus e apoderar-se dele. E o texto não diz que este domínio é a conquista e sim o “roubo” ou apropriação usurpadora, conforme a palavra no original.
O texto no original diz:
΄από δε τϖν ΄ημερϖν ίωάννου τοΰ βαπιστοΰ ΄έως ΄άρτι ΄η βασιλεία τϖν οϋρανϖν βιάζεται καί βιασταί ΄αρπάζουσιν αΰτήν.
Transliterado é : APO DE TON EMERON IOANNU TU BAPTISTU (João Batista) EOS ARTI E BASILEIA TON URANON (Reino dos Céus) BIAZETAI KAI BIASTAI ARPAZUSIN AUTEN.
Encontramos algumas palavras nas duas partes finais do versículo que vamos estudar:
βιάζεται - ( Biazetai) Esta Palavra que é traduzida por violência é na verdade um verbo BIAZW que está na voz passiva e deveria ser traduzido como “sofrer violência”.
βιασταί - (Biastai) é outra palavra que é um substantivo proveniente do verbo BIAZW, e que quer dizer “homem violento”.
΄αρπάζουσιν - (Arpazusin) é um verbo ARPAZO que significa “roubar, arrebatar, tomar para si”.
Considerando as palavras chaves das duas partes finais do texto poderiamos dizer que o texto literalmente diz:
“... o Reino do Céus sofre violência e o homem violento rouba ou arrebata para si a ele.”
Não podemos acreditar que que um homem violento poderia através de um roubo que é adquirir o que não é de seu poderio ser uma forma aprovada por Deus. E a salvação não pode ser adquirida por nenhum mérito próprio é dada gratuitamente, graça, por meio do ato sacrificial de Jesus Cristo em sua morte e ressurreição. Ninguem pode alcançar a salvação por meio de atitudes extremas ou violentas, pois para alcançar o Reino dos Céus é necessário receber o que Jesus fez. Nenhum cristão deveria ser violento roubando algo que não é seu, isto é uma obra do diabo. Então este texto leva a compreensão que existe uma agressão contra o Reino de Deus, assim como foi feito contra João Batista, e homens violentos usam da violência para aprisionar ou roubar para si tudo que é do domínio de Deus, especialmente seu povo, a igreja. João Batista foi aprisionado e decapitado por homens violentos, e isto foi uma violência contra o Reino dos Céus, assim como todos os atos violentos contra a igreja durante todos os séculos. A violência contra o Reino de Deus sempre aconteceu, e vai acontecer a ponto de aprisionar e até matar o povo do Senhor, mas o dia da vingança virá, e esta vingança não pertence a igreja, pertence a Deus. (Deuteronômio 32:35) - “Minha é a vingança e a recompensa, ao tempo que resvalar o seu pé; porque o dia da sua ruína está próximo, e as coisas que lhes hão de suceder, se apressam a chegar”.

6 comentários:

  1. Parabéns, foi a melhor análise sobre esta passagem-Mateus 11.12- que eu já vi até hoje.
    Renato Lima
    rlima119@gmail.com

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  2. MATEUS 11:12 Desde a época de João Batista até o presente, o Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam.poderemos ver esta passagem do evangelho de Jesus como a mensagem de amor que ele veio nos trazer um especie de divisão entre a 1ª revelação de Moisés onde a lei de Deus era firmada no olho por olho e dente por dente portanto através da violência. A 2ª revelação onde Jesus veio nos dizer que o reino de Deus é conquistado com a pratica do amor do perdão e da caridade portanto pelos mansos e misericordiosos, e não mais pelos violentos.MUITA GRAÇA E PAZ.

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  3. Ramos,creio sim que a revelação de Jesus foi como uma explicação de Deus sobre como a lei veio por amor, não para destruição. Portanto tudo que vemos no período de Moisés é uma preparação para a compreensão mais ampla e real do amor de Deus.

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  4. Show , gostei do texto ,dos comentarios e respostas ,to me iniciando pra poder caminhar com vocês .Obrigado Diógenes.

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